segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Me dou o direito

Me dou o direito
De não fazer nada que me sinta obrigada
De sustentar o meu não
De não ficar calada
Quando os desmandos forem sufocantes demais.

Meu dou o direito
De me assumir negra, mesmo que branca na pele
O sangue é negro
E índio
E grego.
Mas primeiro negro,
Com sangue, suor e lágrimas, como já disseram
Com chibatadas, rezas e mandingas
Com mironga e vela acesa.
Pra suportar o cativeiro imposto.
Muito antes do que se via nos livros
Muito antes do que se deixaram contar.
E mesmo índio,
Quando veio a doença, a manipulação e a mentira
Quando veio a fome, a luta e a carne
Canibal de dores tantas
Dores que a história branca contada
Não tira.

Tantas outras sou eu
Na barra da saia da mãe lavadeira
Separando roupa suja
E ganhando os restos.
Vivendo com mínimo
Mas brincando de noite
Com o sorriso da mãe a me olhar.
Uma mãe branca, pobre
Que como tantas mães negras
Carregava trouxa de roupa na cabeça.
Ensinando o que havia aprendido
Em casa de taipa, na roça
Não na escola.
Sou filha de uma mãe que lutou
Contra violências nunca ditas
Choradas no escuro.
Lutou
Pela educação dos filhos,
Pela própria liberdade,
Pelo divorcio,
Pela saúde perdida nas câmaras frias
Pelo direito a ser tratada
Quando o corpo não mais aguenta.

Se somos o resultado da nossa vivência
Ainda não me vejo completa
Tenho voz a gritar
Tenho lágrimas por mim
Por árvores e rios
Por pessoas que nem conheço
Grito
E choro.
Embora nem sempre pareça.
Sorrio também.

Me dou o direito
De gargalhar com a boca aberta
De sentar de perna aberta
De falar palavrão
De apreciar
E só.









segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Umbanda verde: Iniciando a Conversa

Umbanda Verde: União com os Orixás

            Umbanda verde é um termo empregado em várias vertentes da umbanda em todo o Brasil, sempre representando os atos e ritos da religião com o menor impacto ambiental possível. É claro que as questões ambientais estão na moda e isso poderia ser somente mais um modismo também na umbanda, porém, há muito mais ligações da religião com a sustentabilidade do que podemos imaginar. E é disso que se trata essa coluna.
            Bem, antes de explicar em mais detalhes o que vem a ser a UMBANDA VERDE, vamos retomar um ponto de Oxóssi:
“ A mata estava escura,
Uma anjo clareou
No centro da mata virgem
O Seu Oxóssi
Aqui chegou...”
            Esse ponto nos lembra a ligação deste Orixá com a natureza, com a mata. “Oxóssi e Obá são a onda geradora vegetal, com o fator expansor e concetrador”1, respectivamente e estão intimamente ligados às matas e à natureza em geral. Então, ao fazer uma oferenda para Oxóssi em uma mata deve-se ter em mente que o Orixá, por sua energia e regência, estará ligado á oferendas que não agridam ao meio ambiente.
            Mas não é só Oxóssi que está ligado à natureza. Toda a umbanda é uma manifestação natural, quando relacionamos as origens e energias dos Orixás. “O ferro é um dos minérios de Ogum,... a maçã é uma fruta de Oxum”2. Todos os Orixás estão ligados ás forças naturais e ao planeta de alguma forma: Oxum nos rios, Iemanjá no mar, Xangô nas pedreiras, Iansã, Ogum, Oxumaré... Não é possível pensar em um orixá e afastá-lo das forças naturais, são energias intrínsecas, inseparáveis. Assim sendo, é claro e natural que os orixás se ligam às oferendas que não agridem o meio natural, que não causam impactos e estejam livres de agentes poluidores, pois o planeta e o cosmo é seu lar e um não se completa sem o outro. Não é possível imaginar Oxum feliz com uma oferenda poluindo o Seu rio, ou Iemanjá sendo saudada com oferendas de plástico em Seu mar, Iansã feliz com bexigas soltas no ar... O Orixá é uma força natural!
            É necessário repensar os materiais que usamos para as oferendas e ter em mente que a melhor atitude é aquela que não agride o ambiente. Então, não deixe vidro, metal, tecidos, etc. depois de fazer suas oferendas, usem papel de seda, potes de barro, palha, flores e folhas e lembre-se de recolher tudo depois de queimadas as velas. Há várias outras orientações sobre como agir e o que usar e em breve, aprofundaremos esse assunto.

Salve a umbanda, salve o verde!

Fontes: 1 e 2 SARACENI, Rubens. Orixás Ancestrais: a hereditariedade divina dos seres. Inspirado pelo Mestre da Luz Seiman Hanisés Yê. Ed. Madras. São Paulo, 2006


Kelly Cristina da Silva de Oliveira

terça-feira, 3 de março de 2015

Problemas de aprendizagem são culpa de quem?

Quando um aluno chega ao quinto ano, aos 10 anos, ele já passou quatro anos dentro de uma escola. Passou, no mínimo, por quatro professores diferentes, com estratégias e métodos diferentes. Teve contato com livros, cartazes, painéis, filmes, músicas e diversos textos diferentes. Mesmo que seus pais nunca tenham lido pra ele, esse aluno teve contato com as letras porque nosso mundo está repleto delas por todos os lados, ainda mais na atualidade com tanta informação nos cercando, pedindo pra virar conhecimento.
Há tantos alunos que tem acesso à internet e seus afins que fica difícil imaginar como esse aluno de quinto ano pode estar numa situação como a apresentada nas fotos.
Mas chega.

E então eu pergunto: a culpa é de quem?

Escolas foram mudando através dos anos no Brasil, se adaptando aos governos, às políticas, às novas metodologias e sempre se atualizando. Por que isso ainda acontece?

Ainda há escolas em que a rotatividade de professores é grande e é evidente que isso altere o andamento do ensino/aprendizagem. Porém ha muitas escolas, como a que eu trabalho, em que a maioria do corpo docente é regular e permanente. No meu caso, estou há 16 anos na mesma escola e a maioria dos professores está lá há mais de 10 anos. Conseguimos manter uma didática eficaz e contínua, mesmo com a rotatividade da equipe gestora da escola. Os professores passam por capacitações, cursos e treinamentos tanto da Secretaria Municipal de Educação, tanto como de entidades privadas. Conseguimos muitas melhorias no prédio da escola, nos equipamentos e até em materiais.

Por que ainda há tantos alunos com grandes dificuldades de aprendizagem, dislexia, disgrafia e discalculia? Por que ainda há tantos alunos semi alfabetizados aos 9, 10 e 11 anos?

(Continua)