Me dou o direito
De não fazer nada que me
sinta obrigada
De sustentar o meu não
De não ficar calada
Quando os desmandos forem
sufocantes demais.
Meu dou o direito
De me assumir negra, mesmo
que branca na pele
O sangue é negro
E índio
E grego.
Mas primeiro negro,
Com sangue, suor e lágrimas,
como já disseram
Com chibatadas, rezas e
mandingas
Com mironga e vela acesa.
Pra suportar o cativeiro
imposto.
Muito antes do que se via nos
livros
Muito antes do que se
deixaram contar.
E mesmo índio,
Quando veio a doença, a
manipulação e a mentira
Quando veio a fome, a luta e
a carne
Canibal de dores tantas
Dores que a história branca
contada
Não tira.
Tantas outras sou eu
Na barra da saia da mãe
lavadeira
Separando roupa suja
E ganhando os restos.
Vivendo com mínimo
Mas brincando de noite
Com o sorriso da mãe a me
olhar.
Uma mãe branca, pobre
Que como tantas mães negras
Carregava trouxa de roupa na
cabeça.
Ensinando o que havia
aprendido
Em casa de taipa, na roça
Não na escola.
Sou filha de uma mãe que
lutou
Contra violências nunca ditas
Choradas no escuro.
Lutou
Pela educação dos filhos,
Pela própria liberdade,
Pelo divorcio,
Pela saúde perdida nas
câmaras frias
Pelo direito a ser tratada
Quando o corpo não mais
aguenta.
Se somos o resultado da nossa
vivência
Ainda não me vejo completa
Tenho voz a gritar
Tenho lágrimas por mim
Por árvores e rios
Por pessoas que nem conheço
Grito
E choro.
Embora nem sempre pareça.
Sorrio também.
Me dou o direito
De gargalhar com a boca
aberta
De sentar de perna aberta
De falar palavrão
De apreciar
E só.
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